O que é a classe farmacológica de um fármaco?
Ao longo da minha prática clínica, tenho percebido que um dos conceitos que mais frequentemente gera confusão é o de classe farmacológica de um medicamento. Uma dúvida muito comum surge, por exemplo, quando os pais perguntam: “Se o meu filho não está psicótico, porque é que um antipsicótico o poderia ajudar?”. Para responder a esta questão, é importante compreender o que significa classe farmacológica.
O que é a classe farmacológica de um fármaco?
A classe farmacológica refere-se à forma como um medicamento atua no organismo, ou seja, ao seu mecanismo de ação. Agrupa medicamentos que produzem efeitos semelhantes porque atuam nos mesmos sistemas, recetores ou substâncias químicas do corpo. Por esse motivo, a classe farmacológica não indica necessariamente a doença que o medicamento trata. Indica apenas como ele funciona.
É também importante notar que existem diferentes formas de classificar os psicofármacos. O conceito de classe farmacológica baseia-se na forma como o medicamento atua no organismo, enquanto que o conceito de classe terapêutica se baseia no objetivo clínico do tratamento (por exemplo, reduzir a ansiedade, estabilizar o humor, melhorar o sono ou controlar a impulsividade). Ou seja, classe farmacológica não é o mesmo que classe terapêutica.
Exemplo prático: antipsicóticos
Os antipsicóticos recebem esse nome porque foram inicialmente desenvolvidos para tratar sintomas psicóticos. No entanto, do ponto de vista farmacológico, estes medicamentos atuam sobre substâncias químicas do cérebro, como a dopamina e a serotonina, que estão envolvidas em várias funções além da psicose. Por esse motivo, podem ser utilizados, em determinadas situações clínicas, para ajudar a controlar sintomas como: irritabilidade e agressividade, alterações do humor, impulsividade, dificuldades de regulação emocional e perturbações do sono. Assim, uma criança ou adolescente pode beneficiar de um antipsicótico sem ter uma psicose, porque o objetivo do tratamento é aliviar sintomas específicos e melhorar o funcionamento global.
É importante salientar que um dos princípios fundamentais da prescrição farmacológica em crianças e adolescentes é tratar sintomas e não apenas diagnósticos. Nestas faixas etárias, os quadros clínicos encontram-se frequentemente em evolução, nem sempre sendo possível estabelecer um diagnóstico definitivo de imediato. A observação longitudinal e o acompanhamento da evolução dos sintomas são, regra geral, essenciais para o estabelecimento de um diagnóstico clínico mais preciso.
Em resumo
O nome da classe farmacológica de um medicamento não define o diagnóstico da pessoa. Um fármaco é prescrito com base nos sintomas a tratar e nos objetivos clínicos, e não apenas no nome da sua classe.
O mais importante é compreender por que motivo aquele medicamento foi escolhido, quais os benefícios esperados e quais os possíveis efeitos secundários.
É fundamental que a família e o próprio doente sejam devidamente informados e incluídos nas decisões terapêuticas. Esta participação ativa promove uma melhor adesão à terapêutica medicamentosa e contribui para uma relação terapêutica baseada na confiança, no respeito mútuo e na colaboração.